Especial: negócios prosperam à boleia da comunidade LGBTI

Os negócios da comunidade LGBTI não param de crescer. Florescem e prosperam, muito à boleia do turismo. Mas podem ser ainda mais potenciados. E para dar resposta a este desafio surgiu a Variações, uma associação de comércio e turismo, alavancada por empresas e empresários que, de forma concertada, querem promover Portugal como destino LGBTI de referência. O mercado imobiliário não está imune a esta euforia e os preços estão a subir.

Bares, discotecas, tours, mas também unidades hoteleiras, agências de viagens ou marcas de roupa. Os negócios já são muitos e continuam a preferir instalar-se nas zonas tradicionalmente turísticas e mais associadas ao mercado LGBTI. João Passos, responsável pelo projeto “Lisboa Pride – homes for everyone”, e consultor imobiliário na Remax desde há 10 anos, confirma este cenário ao idealista/news. “As zonas do Bairro Alto e Príncipe Real, mas também Baixa/Chiado, Bica, Cais do Sodré/Rua de São Paulo e Intendente” são as zonas mais procuradas.

O consultor conta, por exemplo, que há um ano arrendou, junto à Praça das Flores (próxima do Príncipe Real e Bairro Alto), uma loja de 40 metros quadrados (m2) por 900 euros. Relata outro caso, desta vez na Calçada do Combro, onde uma loja de 70 m2 viu o valor da renda subir de 1.300 (valor de há 5 anos) para 2.700 euros.

“Há maior procura de espaços e, por isso mesmo, os preços têm subido”, explica o consultor, acrescentando que no imobiliário comercial, ao contrário do que acontece no mercado residencial, “os preços sobem, mas o rendimento aumenta proporcionalmente, já que existem mais clientes, de forma mais constante e com maior poder de compra”.

Mercado LGBTI com grande potencial de crescimento

Arrojado, irreverente e pioneiro: assim se apresentava o músico António Variações nos anos 80. A “nova” Variações – Associação de Comércio e Turismo LGBTI de Portugal, quer seguir-lhe os passos. Inspirada na diversidade e irreverência, pretende ser uma voz ativa, nacional e internacionalmente, no setor económico.

Foi uma ideia, inicialmente, discutida por Diogo Vieira da Silva, diretor-executivo da Variações, e Carlos Sanches Ruivo, o presidente, que é simultaneamente o mentor e proprietário do The Late Birds Lisbon – onde esta entrevista foi gravada – o primeiro gay urban resort em Portugal e na cidade de Lisboa, um espaço hoteleiro dedicado ao mercado gay.

O The Late Birds Lisbon já é um caso de sucesso, que pode servir de exemplo para outros. Para Diogo Vieira da Silva havia um “claro défice de mercado”, e uma necessidade urgente de pensar a importância do “nicho” LGBTI, que tem um grande “potencial de crescimento”, tal como conta no vídeo.

“Queremos colocar Portugal no mapa” e trazer Europride para Lisboa

O impacto económico desta comunidade é relevante. E os números não deixam mentir. No mercado nacional existem, pelo menos, um milhão de consumidores LGBTI, aos quais se podem somar os mais de dois milhões de pessoas LGBTI que visitam Portugal anualmente. Fazendo as contas, os proveitos para a economia nacional podem significar receitas de 2.000 milhões de euros – segundo estima a Variações.

E não é à toa que o documento Estratégia Turismo 2027, do Turismo de Portugal, foca a necessidade de “Promover Portugal como destino LGBTI”. A inclusão deste ponto na estratégia do turismo é, para Diogo Vieira da Silva, “um passo gigante”.

“Portugal tem uma estratégia de 10 anos para o turismo muito inteligente”, aponta. O objetivo não será o de apostar no turismo de quantidade, mas sim de qualidade. “Não apostamos tanto no aumento do número de turistas, apostamos sim na qualidade de quem nos visita, um turismo mais sustentável, mais lucrativo, e onde o turista gasta em média mais”, revela.

O diretor-executivo desta nova associação arco-íris diz querer colocar Portugal no mapa LGBTI, adiantando o trabalho que a Variações já está a fazer nesse sentido. Em marcha está o lançamento de uma marca e campanha para dar a conhecer o potencial do país, a “Proudly Portugal”, que pretende estruturar e organizar a oferta, e conseguir atrair “grandes eventos LGBTI internacionais” para território nacional.

Com isso, revela, será possível preparar uma candidatura portuguesa à organização do Europride em Lisboa, para 2022 – um evento que pode trazer para o país cerca de 500.000 visitantes durante uma semana.

Direitos laborais na mira da Variações

Mas Diogo Vieira da Silva avisa que a associação não irá ficar só pelo turismo. Querem criar um Comité Empresarial para a Diversidade e Inclusão LGBTI no Trabalho, “constituído por grandes empresas que queiram ter políticas para a diversidade.”

O objetivo é o de ajudar o mercado de trabalho a perceber melhor as questões LGBTI e a “mudar o seu comportamento”, nomeadamente no mercado tradicional, mas também nas grandes empresas, que “muitas vezes se esquecem” de ter agentes e políticas para a diversidade e inclusão. “Creio que não é por nenhum tipo de maldade ou discriminação, mas por desconhecimento e é aí que a Variações entrará em ação”.